Texto para a revista ROTEIRO MS, em dezembro de 2011.

                      
Minha Índia pessoal





Mochila nas costas, livro guia, muita curiosidade e, claro, uma boa dose de adrenalina.
Foram cinco meses e meio de aventura pela Ásia: Índia, Nepal, China (incluindo Tibet) e o Laos. Uma conversa bem legal para algumas tardes de fotos e suco de laranja.

Pude ver de perto o contraste da miséria na Índia, Nepal, e Laos com a Mega-metrópole Beijin na China.

Tivemos o cuidado de jogar livros fora antes de entrar na China e também de não pronunciar “Dalai Lama” perto dos guardas chineses quando adentrávamos o Tibet. Mesmo já sabendo que se tratava de um regime comunista, ver de perto que a maior população do mundo tem toda a informação de livros e internet filtrada por alguns poucos líderes foi assustador e motivo para repensar a seriedade de ser um cidadão e representar um país e seus ideais.

Tentei absorver um pouco da monstruosidade cultural desses países.
O sincretismo religioso da Índia com um mix de Hinduísmo, Budismo e Cristianismo.  Lá, muitas casas têm um oratório na frente e em boa parte delas, num mesmo oratório, podemos reverenciar a imagem do Jesus Cristo ocidental alvo e um Ganesh, com direito a incensos.

Maravilhoso, também, foi o contato com a natureza nas reservas ecológicas do Nepal e do Tibet, sendo que o mais excitante, para mim, foram os seis dias de trekking no circuito do Annapurna, no Himalaia. Difícil descrever a beleza daquelas montanhas e a sensação de superação à cada dia de esgotamento físico.

Por agora, vou contar um pouco da minha experiência na Índia.
Acredito que o que faz uma viagem são as pessoas dela.
Por isso, agradeço ao Maurício, querido amigo e namorado, à época, que compartilhou essa experiência comigo.  
Pessoas, também, das quais não posso deixar de lembrar com carinho, são os próprios indianos. Pessoinhas morenas e magras que devem cercar 1 m e 65 cm. Os homens trocam carícias, andam de mãos dadas e sentam no colo uns dos outros sem ter nenhuma conotação sexual ou homosexual. Sempre com calças compridas sociais e bigodes; E elas na elegância de seus saris cujas cores e variedades nos dizem sobre suas castas, situação matrimonial, ou humor. É bem interessante andar pelas ruas tentando decifrar o propósito daquelas vestimentas.
Tenho um carinho especial pela Índia. Foi neste país que despendemos mais tempo; dois meses.

Os indianos têm um gesto peculiar de chacoalhar a cabeça para um lado e para o outro, que significa: Nada. É só um gesto simpático.
E se você for pedir informação na Índia, certifique-se de perguntar: - Para onde fica tal lugar? Porque, se você perguntar: - Tal lugar fica para lá? Eles vão responder com este simpático gesto e você não vai saber se sim ou se não.
No Hinduísmo, as vacas são sagradas, portanto, no MC Donalds, só hambuguer  vegetariano. Uma vez, conversando com um jovem indiano, ele nos convidou para tomar uma coca, mas não quis tomar no MC Donalds porque ele já havia viajado e visto que em outros países o MC Donalds vende carne de vaca.
O álcool também é proibido no Hinduísmo. Certo dia, conversamos com um garçom e ele nos contrabandeou a cerveja em bule que apreciamos em xícaras. Na cidade de Ahmadabad, por exemplo, é preciso uma autorização para beber, concedida por 200 rupias (cerca de oito reais) para indianos e grátis para turistas. No estado do Rajasthan a venda de bebidas alcoólicas cessa às 20:00 hs.
Muitos bebem disfarçadamente: Entram num bar, este disfarçado, não identificado como tal, pedem uma dose, bebem rapidamente, e se vão.

Os carros não têm seta para sinalizar a mudança de faixa, até porque seria um acessório inútil já que as ruas não têm a mesma. Para tanto, basta acenar com o braço pela janela e dar algumas buzinadas. Buzinas tocam o tempo todo, os motoristas gritam, quase não existem sinais de trânsito, as direções nem sempre são respeitadas, o mesmo espaço é ocupado por pedestres, carros, motos, muitas motos, caminhões, riquishás ou auto-riquishás, bicicletas, vacas, elefantes, cães...

A economia da Índia está em crescimento como a nossa e muitos viajantes, ainda que curiosos, optam por outros destinos com receio do encontro com a pobreza e violência.
Mas, pelo contrário, me admira que lá, apesar da pobreza, os índices de violência são muito menores que os do Brasil. O número de homicídios dolosos é baixo e decrescente enquanto no Brasil tem crescido e é cinco vezes mais alto!
(Misse, Michel, “Violências no Brasil e na Índia: para uma (difícil) comparação”, in Diálogos Tropicais – Brasil e Índia, organizada por Dilip Loundo e Michel Misse, Editora UFRJ, 2003.) – Para o leitor que quizer checar.
A Índia exibe uma cultura com alto grau de desenvolvimento espiritual e aberta para a imaginação e para as dimensões supra-racionais da existência. A experimentação de estados alterados de percepção e de consciência e de dimensões profundas da psicologia humana, do imaginário e do desenvolvimento do potencial do corpo e do espírito reduz a necessidade de uso de drogas químicas para se ultrapassar a dimensão meramente racional da existência. (como diz : Maurício Andrés é autor de “Tesouros da Índia para a civilização sustentável”, Editora Rona e Santa Rosa Bureau Cultural, 2003.) Assim, a Índia nos ressalta a importância de se cultivar cultura e educação, e de olhar atentamente e aprender com o legado cultural que nossos antepassados nos dão.
Para quem está acostumado a agarrar a bolsa na frente para andar em São Paulo, dá para ficar mal acostumado ao ver a despreocupação dos pedestres lá. É nítida a diferença da sensação.

Não existe uma “apologia” à malandragem, até os rapers lá são diferentes, eles estão sorrindo nos clipes! Não têm cara de marra e revolta que agente aqui do ocidente conhece.

Aterrissamos em New Delhi, e confesso que a primeira impressão foi assustadora. Desavisada, custei uma semana para entender o que havia de errado com minha roupa. Logo no primeiro passeio, fomos à Old Delhi, a parte mais antiga e tradicional da cidade, onde não existem mulheres trabalhando no comércio e nem andando desacompanhadas nas ruas. Bem, havia lido que deveria cobrir os joelhos e os ombros e foi o que fiz. Estava de camiseta e calça “capri”, só depois entendi que o problema é que não estava com a virilha coberta, deveria usar uma blusa mais cumprida. Quase fui expulsa de uma loja, onde os senhores pareciam ter medo que eu sujasse seus lindos papeis de carta com minha impureza de mulher ocidental (além do meu traje, eles não acham mesmo bom trato tocar a mercadoria). E por sorte, não fui assediada de forma mais agressiva. Mesmo de mãos dadas com Mauricio, eles paravam para me olhar na rua e eu me sentia desfilando de biquíni na rua. A impressão que eles têm sobre as ocidentais é o que chega através do cinema, logo, para eles, a qualquer momento, podemos subir numa mesa com um ventilador no bumbum e mostrar as partes tal qual, Merilyn Monrou.
Por outro lado, ao me vestir com trajes indianos, os homens nem mesmo dirigiam a palavra a mim. Quando numa mesa de restaurante, perguntavam ao meu namorado o que deveriam me servir.

Nesses dois meses estivemos em mais de 14 cidades, contanto as que estivemos só de passagem. Depois de Delhi, fomos sentido Sul para Agra, Jaipur, Udaipur, Ahmadabad, Bombay e subimos, em direção ao Nepal por Aurangabad, Jabalpur e Varanassi.

Na Índia, tudo é muito forte. As cores dos sáris, os cheiros  de incensos nas ruas, os cheiros das especiarias... curry! muito curry e pimenta!

Aqui vão algumas dicas aos amigos interessados em experiênciar a Índia.
Primeira dica: tudo tem muita pimenta mesmo! Desde as panquecas no café da manha. Até para quem gosta, acho legal pedir “without spice”.

Para um período curto na Índia  a maioria dos turistas opta por fazer o triângulo, Delhi, Agra e Jaipur. Se der para fazer os translados de avião é melhor. Porém, trem é bem mais barato, procure sempre classe A ou B. Menos que isso não dá. É bem desconfortável, inacreditávelmente lotado e sem ar condicionado.
Gosto desse roteiro, tem motivos como monastérios, ruínas de fortes e castelos de poderosos Maharajas, o Templo do Sol com macacos sagrados (em Jaipur), dentre outros. O Taj Mahal (em Agra) é mesmo tão lindo quanto dizem e faz jus a sua fama... como deve ter sido a princesa que inspirou seu amado a construir tal tumba?
Para quem for de casal, a cidade de Udaipur é muito aconchegante e se faz em torno do inspirador lago Pichola, que vem sendo cenário de romance para muitos casais que vão passar a lua de mel. Foi também cenário para um filme do “007”, este reprisado todos os dias às 18:00 hs no terraço de um dos hotéis; é fácil encontrar pedindo informação em hotéis e restaurantes.
Para quem vai ficar mais tempo eu recomendaria dar um pulo em Varanassi pra ver o rio Ganges e nas cavernas milenares esculpidas, de Ajanta e Ellora. A sensação de redenção e sublimação é poderosa.

De fato, têm-se que estar esperto na hora de comprar a água, eles fazem todo tipo de artemanhas, já vi até uma tampa cortada no topo, para colocar água sem romper o lacre.
Quando comprar, não confie só no plástico que envolve a tampa, na hora, já tire o plástico e veja se está dentro dos conformes e  você não vai ter problemas. Só tome água mineral!
Com a comida também tem que ter cuidado. Procure sempre o melhor restaurante.

Termino dizendo que foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida! E termino aqui agradecendo aos meus pais queridos que me proporcionaram esta experiência.








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